domingo, 17 de agosto de 2008

O que fica de nós

Hoje fui com a minha mãe ao cemitério.
Os meus avôs (já falecidos) nasceram os dois por esta altura, fomos até lá para lhes "dar" umas flores de presente.
Eu sinceramente não sou muito de cemitérios, esta "adoração" de campas, os santinhos e as flores depois da morte, para mim, não fazem muito sentido, mas respeito e até colaboro nesse ritual.
Reparei que na maioria das lápides escreveram à memória.
Realmente é a memória o que fica de nós, é a memória que deixamos nos outros que faz de nós quem nós fomos e que nos faz ser lembrados.
Uma das curiosidades desta memória post mortem é que, na maioria das vezes, apenas deixamos ficar as coisas boas e apagamos cordialmente as más recordações, os episódios mais tristes e infelizes... guardamos o bom.
O ser humano é realmente estranho...

Em vida zangamos, brigamos, chingamos, amuamos, deixamos de falar a amigos, "pintamos o diabo a sete"... mas morrer aproxima-nos da santidade e dá-nos o direito ao perdão quase absoluto.
Porquê?
É triste. Muito triste. Tão triste para os que vão, que partem sem saber que os amamos e que são importantes para nós, como para os que cá ficam, que não curtem verdadeiramente a companhia dos que partiram.
Porque não conseguimos apagar, perdoar e esquecer em vida? Porque não guardamos só o bom?
Eu não consigo ficar zangada com ninguém, nem pouco, nem muito tempo... simplesmente não consigo. Sou eu quem dá muitas vezes "o braço a torcer" e nem sempre sou quem deveria dar... mas dou. E nunca me arrependi de dar... nem o braço, nem o coração.
Quem me morre sabe o que leva de mim, sabe o que significou para mim.
Quando eu morrer não quero coroas nem palmas, não quero uma multidão no meu funeral, não quero campas enfeitadas, nem lápides com pensamentos profundos, nem tão pouco quero amor, arrependimentos e saudade.
Quero receber flores, quero companhia, quero escutar e ver coisas bonitas, quero ouvir: "gosto de ti", "desculpa", "perdoo-te", "tenho saudades", "queres ir comigo?", "vamos sair", "vou passar por tua casa", "vamos à praia?", "estava mesmo agora a pensar em ti", "fazes-me falta"... dos amigos, da família, dos amores... mas em vida.
Quando eu morrer sei que o que ficará de mim será a memória.
A minha memória não precisa de nada.
Mas eu preciso... agora.