sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O sorriso aos pés da escada

Ontem fui ao Teatro da Comuna ver uma peça que está em exibição até ao final do mês (recomendo vivamente a quem quiser ir e o mês está a chegar ao fim...)
A história de Augusto, um palhaço famoso que vive entre aplausos, risos, êxtase do público, mas que ainda assim não é feliz.

Augusto esconde-se no anonimato e encontra a felicidade nas pequenas tarefas, nas pequenas coisas da vida, no sorriso genuíno dos outros, num simples olhar agradecido.
Descobre que só podemos ser felizes sendo nós mesmos, sem máscaras, sem futilidades. O êxtase do momento, a alegria eufórica, os risos estridentes, o sucesso e a fama nada são senão ilusões...
A verdadeira felicidade está dentro de nós, no que realmente somos, nas pequenas alegrias da vida que muitas vezes nos passam ao lado, num sorriso sincero e agradecido de alguém, num sorriso...
:)
Recomendo, sem dúvida.
Um ambiente acolhedor e familiar e uma mensagem que tocou bem cá dentro, no quentinho do coração.

Obrigada Pi e Sjr pela partilha deste momento.


Na vida, por vezes, os acontecimentos mais significativos caem-nos em cima sem darmos por isso, tal como a aproximação silenciosa de um gato selvagem. Como é que podemos não ter reparado numa coisa de tal importância? É que a camuflagem é psicológica.

A negação, o acto de não ver o que é evidente, porque na realidade não se quer ver, é o maior dos disfarces. Adicione-se a isto a fadiga, as distracções, racionalizações, fugas mentais e todas as outras preocupações da mente que se erguem no caminho.
Felizmente, a persistência do destino pode arredar os disfarces e fazer-nos ver aquilo que precisamos de ver (...)

O monge e filósofo budista vietnamita, Thich Nhat Hanh, escreve sobre como apreciar uma boa chávena de chá. Temos que estar totalmente despertos no presente para apreciar chá. Apenas com a consciência no presente, as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena. Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a doçura e saborear a delicadeza. Se estamos a ruminar sobre o passado ou preocupados com o futuro, perderemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá. Olharemos para a chávena, e o chá terá já terminado.

A vida é assim. Senão estamos totalmente no presente, quando olharmos à nossa volta este terá desaparecido. Teremos perdido a sensação, o aroma, a delicadeza e a beleza da vida. Parecerá ter passado a correr por nós.

O passado terminou, aprendamos com ele e deixemo-lo ir.
O futuro ainda não está aqui. Planeemos, sim, mas não gastemos o tempo a preocuparmo-nos com ele. A preocupação é uma perda de tempo.
Quando pararmos de ruminar sobre o que já aconteceu, quando pararmos de nos preocuparmos com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente.
Só então começaremos a alegria de viver.

("Só o amor é real", Brian Weiss)

sábado, 15 de novembro de 2008

Espalhem a notícia!

Espalhem a notícia do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto, o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

A terra tremeu ontem, não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio transbordou
e o tremor que anunciava era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança!

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra basta,
é só adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós...
(Sérgio Godinho)

Bem-vindo miúdo!
A "tia" já te adora e está muito, muito feliz!
A felicidade vem destas pequenas-grandes coisas, pequenas-grandes vitórias, que os mais pequenos vêm ensinar aos crescidos.
Parabéns G, sabes que estou e estarei ao teu lado, continuo a mandar-te boas energias e sei que vai tudo correr pelo melhor ;)
Estou aqui para ti (para vós).
Estou feliz!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Metade de mim



Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.

Que o homem que eu amo seja sempre amado, mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida

e a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,

Apenas respeitadas como a única coisa que resta a uma mulher inundada de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
e
a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesma se torne ao menos suportável

Que o espelho reflicta no meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo,

mas a outra metade é cansaço.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor
e
a outra metade... também.

(Adaptação de "Metade" - Oswaldo Montenegro)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Há dias assim

Escuro, frio, ameaçador.
Estes dias invernais dão-me cabo do espírito, enclausuram-me, deprimem-me.
Ficar em casa não me ajuda nada, sinto cá dentro uma energia que vai aumentando, aumentando, aumentando e que preciso libertar.

Aventurei-me e fui.

O vento alvoraçou-me os cabelos e o frio procurava caminho no meu pescoço.

Enrolei o lenço e enterrei o capuz. Tudo bem atado num falso sentimento de protecção.
Passo a passo.

Era um deserto de pessoas compensado por uma multidão de aves.

Passo a passo.
O chilrear, o grasnar e o piar confundiam-se com a música que saía dos phones.
Outro e outro passo.

Andei, olhei, senti.
Parecia tudo tão calmo, tão tranquilo, tão meu... só meu...

Passos e mais passos.
Parei e sentei-me.
Fiquei a olhar o horizonte, o voo dos pássaros e os meus pensamentos pareciam embarcar nas águas do Tejo, devagar, flutuando, longe, dormentes... Sem dor, sem mágoa, sem calor, sem emoção, sem nada. Dormentes.

O vento que corta como uma lança. Um pingo gelado na testa, outro na ponta do nariz.
Levantei-me.
Os passos mais firmes, mais fortes.

A música, os passos, os pingos de chuva... tudo parecia cadenciar-se num só ritmo.

O vento e a chuva despenteada, um pingo aqui, uma gota ali.

O capuz começa a descair e o lenço a alargar... eu não me importo.

As gotas de chuva molham-me a cara e confundem-se com lágrimas, lágrimas que já não tenho, que já não sinto.
Cai o capuz e soltam-se as pontas do lenço, o cabelo ao vento e a cara molhada.

Os passos de corrida, o coração bate... sinto-o bater, oiço-o.

A chuva, o vento, os passos, o coração, a música.
Estou forte, decidida, despenteada, molhada.
Sei quem eu sou, sei o quero e sei para onde vou.

O vento, o frio, a chuva não me incomodam... refrescam-me.

O inverno que desponta não me mete medo, dá-me a certeza que lá na frente está o verão.

E é esse o meu destino, é esse o meu caminho, lá onde as noites são quentes, o céu estrelado, onde o calor aquece a pele e o coração, onde o sol brilha e todos nos recebem num sorriso.
:)