quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Metade de mim



Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.

Que o homem que eu amo seja sempre amado, mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida

e a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,

Apenas respeitadas como a única coisa que resta a uma mulher inundada de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
e
a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesma se torne ao menos suportável

Que o espelho reflicta no meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo,

mas a outra metade é cansaço.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor
e
a outra metade... também.

(Adaptação de "Metade" - Oswaldo Montenegro)

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