sábado, 25 de outubro de 2008

Solidão

"Solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem para si mesmo."
Hermann Hesse

Tenho uma capacidade intuitiva que nunca me permiti explorar ora por medo, ora por "descrença". A verdade é que, desde o final de 2007, intui que o ano de 2008 iria ser muito especial e traria consigo mudanças inesperadas... o que de facto veio a acontecer (e o ano ainda não acabou...).
Uma relação de anos e anos terminou, vivi intensamente uma paixão assolapada (pouco correspondida) e vi-me sozinha.
Esta solidão que vi de início como algo desastroso, catastrófico, desesperante... deu lugar a uma paz incrível, serenidade, busca de auto-conhecimento, de algo maior, mais intenso, mais espiritual.

Acredito em sinais (continuo a acreditar), sei que nada acontece por acaso e que tudo tem um propósito maior para acontecer. Se formos sinceros, verdadeiros, fiéis a nós próprios conseguimos ver o caminho a seguir e entender os "porquês".

Tenho tido vários "chamamentos" que de início ignorei mas que por fim resolvi aceitar. O que nos rodeia é bem mais que aquilo que vemos, há uma força maior, há uma energia maior, há um poder maior.

Recusei aceitar a minha solidão porque a via como algo negativo, e nessa negação fiz o que os putos fazem:
- rodear-me de amigos, muitos e muitos amigos, mesmo aqueles que não via há anos e foi bom... muito bom. Foi bom revê-los, reconhecê-los, estar com eles, divertir-me com eles, recordar com eles, ser feliz com eles (fez-me correr o país, Porto, Coimbra, Santarém, Faro, Évora...);
- ir a jantares, lanches, almoços com amigos ou colegas ou conhecidos ("tudo" servia para me afastar a ideia da solidão);
- ser "louca" de fazer actividades radicais (com putos ainda mais putos que eu...);
- ir a concertos, sair à noite, beber uns copos (coisa que não fazia também há muito tempo...) Fechei-me na multidão, na companhia, na agitação, como se precisasse de provar a alguém ou a mim própria que não estava só, que me divertia e curtia como a "malta". Foi uma resposta imatura, mas que todos passamos por ela, todos precisamos dessa fase para perceber que o caminho não é por aí. É claro que foi uma fase divertidíssima, animada, cheia de risos, gargalhadas, adrenalina, que me fez retomar contacto com pessoas tão importantes para mim, me fez conhecer umas especiais (outras nem tanto...) e me fez muito bem ao ego.

A luz atingiu-me e percebi que a vida deu-me esta solidão para mim, para eu me reencontrar, para eu me descobrir, para perceber onde cheguei, quem sou, para onde quero ir, o que quero fazer e o que quero ser. Tenho assimilado esta solidão e entendo-a agora como uma necessidade. É agora uma solidão construtiva, reflexiva e tranquila.
Na busca de mim mesma encontrei e conheci pessoas especiais, iluminadas, profundas, com maneiras de ver a vida e o mundo bem mais próximas da minha, que entendem que não quero nem preciso encontrar "alguém" para ser feliz, que as pessoas que entram e ficam no nosso caminho são as que estão destinadas e verdadeiramente valem a pena, que o único "alguém" que eu tenho de encontrar sou eu...
depois, tudo o resto se harmoniza, tudo o resto virá.
Se a vida me deu esta solidão, tenho de tirar o melhor partido dela e o tempo que passo comigo mesma não me incomoda, faz-me crescer.

domingo, 21 de setembro de 2008

Voar

Voámos!
É quase indescritível, uma sensação mágica, única...
Primeiro: a expectativa, a ansiedade, o nervosismo.
Segundo: a queda! o grito! a adrenalina total! intensidade, vento, sentes-te o dono do mundo.
Terceiro: planar... o silêncio, a paz súbita. parece tudo tão calmo, quase irreal e o mundo está aos teus pés...
Quarto: aterragem. a pulsação está acelerada como nunca te lembras, doem as bochechas de tanto sorrir, a cabeça não sabe se é ou não real.
Quinto: a calmia... o corpo fica dormente, a cabeça leve... não pensas, só sentes... um espírito novo, tranquilo, a satisfação, os olhos que brilham... parece que tiveste uma intensa noite de sexo/amor (parece mesmo)
Sexto: a memória. revives, sentes-te feliz, queres voltar de novo (um dia, quem sabe, talvez), depois disto já nada será como antes, a perspectiva muda, fica mais alargada, os problemas são pequenos, desafiaste a morte, viste o mundo de cima, tocaste nas núvens... nada mais interessa, sentes um egoísmo saudável, és feliz e és tu que contas.

Olha B, sem ti dificilmente concretizaria este "sonho" (e sei que é reciproco).
Obrigada pela companhia deste voo e de outros voos que temos arriscado.
A vida é bela, há que vivê-la intensamente e aproveitar cada pequena oportunidade para se ser feliz!
O melhor para ti.
;)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Felicidade

Como dizia Saint-Exupéry: Para que haja uma árvore florida, é preciso haver antes uma árvore; e, para haver um homem feliz, é preciso haver em primeiro lugar um homem.

O que é a felicidade? Porque andamos todos à procura dela? Vêmo-la como um remédio milagroso, a cura para os nossos problemas, a solução final para uma vida triste sem sabor.
A felicidade é um modo de vida, é algo que temos já dentro de nós. Não é uma "coisa" que surgirá como por magia se tivermos isto ou aquilo, se formos aqui ou além, se conseguirmos ter estas coisas, encontrar estas pessoas ou entrar naquele lugar.
Andamos constantemente a "adiar" a felicidade, ficamos à espera... a eterna espera de um milagre, que algo maravilhoso aconteça e não conseguimos ver (verdadeiramente ver) todas as maravilhas que nos rodeiam, todas as pessoas incríveis que existem nas nossas vidas, todos os momentos fantásticos que muitas vezes deixamos passar ao lado.
Ficamos "presos" àquilo que não conseguimos, deixando de ver tudo aquilo que temos.
Valorizamos as "coisas" que não são nossas e esquecemos que somos mais, que somos maiores que isso.
Às vezes, só depois de uma tragédia entendemos o que realmente precisamos, o que realmente nos faz falta, quem é realmente importante. No final da linha, o que nos resta são os afectos.
Há que viver todos os dias intensamente, saboreá-los e partilhá-los com quem realmente interessa e se interessa, perceber que a felicidade não é a meta, mas sim o caminho.
Por isso, façam o favor de serem felizes... hoje, agora!

Minha querida S, obrigada por estares na minha vida, sei que estás a passar uma fase menos boa, mas que vais descobrir a felicidade no teu dia-a-dia, é um exercício diário. Estás no meu blog (olhos de pura felicidade), no meu flickr (já te viste, não é?), nos meus pensamentos e no meu coração.
Um pensamento especial também para ti G. As coisas não estão fáceis (eu sei), mas estas adversidades fortalecem-nos e obrigam-nos a ver. Sabes que estou contigo... vai tudo correr bem porque tu, sem dúvida, mereces o melhor.
Há pessoas que choram por saberem que as rosas têm espinhos; outras há que sorriem por saberem que os espinhos têm rosas ;)

domingo, 17 de agosto de 2008

O que fica de nós

Hoje fui com a minha mãe ao cemitério.
Os meus avôs (já falecidos) nasceram os dois por esta altura, fomos até lá para lhes "dar" umas flores de presente.
Eu sinceramente não sou muito de cemitérios, esta "adoração" de campas, os santinhos e as flores depois da morte, para mim, não fazem muito sentido, mas respeito e até colaboro nesse ritual.
Reparei que na maioria das lápides escreveram à memória.
Realmente é a memória o que fica de nós, é a memória que deixamos nos outros que faz de nós quem nós fomos e que nos faz ser lembrados.
Uma das curiosidades desta memória post mortem é que, na maioria das vezes, apenas deixamos ficar as coisas boas e apagamos cordialmente as más recordações, os episódios mais tristes e infelizes... guardamos o bom.
O ser humano é realmente estranho...

Em vida zangamos, brigamos, chingamos, amuamos, deixamos de falar a amigos, "pintamos o diabo a sete"... mas morrer aproxima-nos da santidade e dá-nos o direito ao perdão quase absoluto.
Porquê?
É triste. Muito triste. Tão triste para os que vão, que partem sem saber que os amamos e que são importantes para nós, como para os que cá ficam, que não curtem verdadeiramente a companhia dos que partiram.
Porque não conseguimos apagar, perdoar e esquecer em vida? Porque não guardamos só o bom?
Eu não consigo ficar zangada com ninguém, nem pouco, nem muito tempo... simplesmente não consigo. Sou eu quem dá muitas vezes "o braço a torcer" e nem sempre sou quem deveria dar... mas dou. E nunca me arrependi de dar... nem o braço, nem o coração.
Quem me morre sabe o que leva de mim, sabe o que significou para mim.
Quando eu morrer não quero coroas nem palmas, não quero uma multidão no meu funeral, não quero campas enfeitadas, nem lápides com pensamentos profundos, nem tão pouco quero amor, arrependimentos e saudade.
Quero receber flores, quero companhia, quero escutar e ver coisas bonitas, quero ouvir: "gosto de ti", "desculpa", "perdoo-te", "tenho saudades", "queres ir comigo?", "vamos sair", "vou passar por tua casa", "vamos à praia?", "estava mesmo agora a pensar em ti", "fazes-me falta"... dos amigos, da família, dos amores... mas em vida.
Quando eu morrer sei que o que ficará de mim será a memória.
A minha memória não precisa de nada.
Mas eu preciso... agora.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Morreste-me

Morreste-me.
Lembro os momentos vividos, as palavras doces, as esperanças de amor e felicidade. Lembro o teu olhar a esbarrar no meu, as tuas mãos nas minhas, a tua pele na minha pele, o teu calor, a tua voz, a tua boca… essa boca onde tantas vezes mergulhei e me deixei naufragar. Morreste-me.
Ficaram as lembranças e uma tristeza que me consome.
É um luto diário, pesado, dorido.
Morreste-me.
Não te enterrei, não vi o teu corpo sem vida, não senti a tua luz apagar, não pude dizer-te adeus e olhar-te uma vez mais.
Mas morreste-me.
Foi uma morte trágica, inesperada, repentina e devastadora, assim como foi o nosso amor.
Morreste-me.
E não tenho onde deixar flores, onde ir chorar a tua morte, nem ninguém entende o meu pesar.
Morreste-me.
Mas eles dizem-te vivo, que estás bem e perto…
Não entendem que me morreste, que partiste, que não estás perto, que não vais voltar nunca mais. Eles não sabem, eles não vêem, não sentem como eu sinto, não te perderam como eu te perdi.
Morreste-me.
É essa a verdade.
Recuso-me a aceitar-te vivo, não és tu, não podes ser tu. É só alguém que se parece contigo aos olhos deles e eles não sabem…

Eles não vêem que esses olhos não têm o brilho dos teus, que essa voz não tem o sentimento e o encanto da tua, que essas palavras são vazias e ocas, que jamais dirias o que ele disse, jamais farias o que ele fez, jamais fugirias como ele fugiu.
Morreste-me, sim.
Foi a morte na sua forma mais cruel, sem aviso, sem adeus, sem esperança.
Guardo o teu túmulo em mim, bem fechado e silencioso.
Morreste-me...
E uma parte de mim… morreu contigo…

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades

Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
(Vinicius de Moraes)
Estou num intervalo, sim.
Sinto-me nesse momento parado, quase inútil de quando estamos a ver um bom filme e nos obrigam a esperar "séculos" de publicidade dolorosa até à próxima parte.
O que mais me entristece é que os intervalos estão a ficar cada vez mais longos, cada vez mais difíceis de passar...